Somos tempo gasto em atitudes básicas. Poderíamos ceder-nos ao silêncio de mais uma discussão sem fundamento. Acho que já deverias de calcular que nunca me calo. Por muito que não tenha resposta irei sempre responder. Queria ter-te coragem para te escrever uma carta com monossílabos bonitos. Uma carta para te escrever o quanto as verdades, as mudanças e os contra-tempos ainda me trespassam as traseiras da Vida em sangre frio. Que és o meu céu, o meu sol, a minha juventude e velhice mas que por vezes é tarde demais para deixarmos o que tínhamos para escrever na caixa do correio. Por vezes, dá-me súbitas vontades de estalar os dedos e recapitular os capítulos em que sobrevivíamos como sabíamos. E, da maneira que sabíamos era suficiente. Em que qualquer muro por muito consistente que fosse nunca nos desabava. Por vezes, bebo tragos de saudades. De me cruzar com os meus pais na cozinha a fazer torradas. E, por vezes, bebo tragos de rancor porque já nada está ao meu alcance. Aliás, nunca esteve. Aprendi com estas chapadas de luva branca que não podemos travar as voltas. As voltas da vida mudam. É assim que tem de ser, é assim que teve de ser e o que tem de ser tem muito azar e muita força.